Conto | Era uma vez o Encontro

by - January 06, 2017


O mês passado fui desafiada por uma colega da minha mãe (que é assistente social) a escrever um conto para incluir no projeto de Natal/Dia dos Reis de uma IPSS. 

Esta instituição estava encarregue de fazer um presépio de materiais recicláveis - para um concurso a decorrer na Junta de Freguesia - e esta colega da minha mãe achou que faria sentido incluir também algo mais didático: pediu-me que escrevesse um conto simples para poder ser entendido por crianças e idosos (porque a IPSS tem uma creche e um centro de dia), a quem seria lido mais tarde.

A temática não tinha que ser propriamente acerca do Natal nem sobre as festividades do dia 6 de janeiro: as únicas coisas que tinham de estar presentes eram o nome do projeto ("Ao Encontro") e estrelas.


Tanto o presépio como o conto têm estado em exposição na Junta de Freguesia da Estrela e hoje, dia de apresentação dos resultados do concurso, fui convidada a estar presente na cerimónia de entrega de prémios para que, enquanto autora do conto, fizesse eu a leitura do mesmo perante o grupo de pessoas presentes.

Foi uma experiência e tanto! Nunca tinha feito nada do género: a sala estava cheia (de crianças, de idosos, de profissionais da Junta...) e eu não me senti nada intimidada por isso - as técnicas de apresentação que a ESCS me dotou ao longo dos 3 anos de licenciatura valeram a pena! 😉

Recebi imensos elogios mas o que mais me deixou comovida foi o de uma senhora que foi professora de Literatura durante muitos anos e que me garantiu que o meu conto foi capaz de superar todas as suas exigências literárias: que adorou a forma como estava estruturado e toda a narrativa/criatividade que originou o texto.

Não estou habituada a que elogiem as coisas que faço e, por ser demasiado perfecionista, tenho muita dificuldade em ver que o meu trabalho está bem feito. Por mais vezes que releia este conto, ele parece-me básico, simples e capaz de ter sido escrito por qualquer outra pessoa... Mas receber os louros por ele é uma sensação boa e eu gostei muito desta experiência.

Para quem estiver interessado em ler o conto, pode lê-lo aqui em baixo.

O Primeiro Encontro

Era uma vez, um menino chamado Pedro.
O Pedro tinha o sonho de, quando fosse grande, ser um astronauta: ele era fascinado pelo cintilar das estrelas, pela luz brilhante da lua e, acima de tudo, o Pedro adorava a ideia de ainda existir muita coisa por descobrir na imensidão do espaço.
A mãe e o pai perguntavam-lhe:

- “Não vais ter medo de estar numa nave sozinho?”

- “Não! Eu não vou estar sozinho: eu vou estar sempre a pensar em vocês!” - disse o Pedro entusiasmado.

- “Mas para um dia poderes vir a ser um astronauta, tens de estudar muito e trabalhar muito! Achas que consegues?”

- “Sim, eu vou conseguir!”

Os anos foram passando mas a persistência do Pedro manteve-se: aplicou-se tanto na escola que foi sempre o melhor aluno da turma. Todos os meninos queriam ser como ele!
Entrou para a universidade e lá começou a estudar aquilo que realmente ele queria desde pequenino: o espaço, as estrelas e a lua.
Despediu-se da família com um misto de saudades daquilo que deixava em Terra e de excitação pelo que estava para vir. Mal ele sabia que a vista lá de cima era ainda mais bonita do que ele pensava.

- “Olá, rapazinho” - ouviu o Pedro. Uma voz suave vinda do desconhecido.

- “Quem está aí?” - perguntou ele a medo.

- “Aqui, ao teu lado. Sou a estrela mais cintilante, a estrela mais velha e mais sábia que podes encontrar aqui”

- “Eu não sabia que as estrelas falavam!” - exclamou o Pedro.

- “É verdade. Nós falamos, nós vemos os humanos todos os dias aqui de cima e sentimos. Sentimos a adoração que nos é feita - nós sabemos que as pessoas gostam de olhar para nós à noite - mas também sentimos o efeito da poluição...” - disse a Estrela.

- “Como é que a nossa poluição lá em baixo vos afeta aqui?

- “Ficamos com tosse, com comichões e a nossa luz começa a querer apagar... Todas nós, as estrelas que vocês admiram, estamos a lutar muito para não nos deixarmos desligar” - confessou a Estrela, num tom triste e com voz rouca.


- “Se dependesse de mim e só de mim, eu faria de tudo para vos proteger! Desde pequenino que tudo o que eu mais queria era vir para o espaço para vir conhecer as estrelas: nem imaginas o quão feliz fiquei por saber que posso realmente falar contigo!”

- “Não depende só de ti... Mas podes falar com as pessoas que te são mais próximas e espalhar a palavra. Essas pessoas vão dizer a outras e assim sucessivamente! Vocês, humanos, são capazes de coisas grandes: basta acreditarem!” - a Estrela mostrava entusiasmo ao expressar esta ideia.


- “Prometo que o farei! Mas... Estrela?” - interrogou o rapaz.

- “Diz”


- “Preciso de te fazer uma pergunta difícil à qual ninguém na Terra me sabe responder. Penso que me saberás dar uma resposta”


- “Responderei a tudo o que puder!” - afirmou a Estrela.


- “Quando as pessoas da Terra partem...” - engoliu em seco - “Tornam-se estrelas, como tu?” 

- “Sabes, rapazinho... Os humanos gostam de colocar questões para as quais não estão preparadas para saber as respostas. A Natureza procurou fazer as coisas da maneira certa, dotando as pessoas de informações que nós aqui no céu não temos conhecimento e dando-nos a nós, Estrelas do universo, outras tantas que vocês só devem descobrir quando chegar a altura devida” - explicou sabiamente a Estrela, sem querer magoar o Pedro com resposta que não era a que ele procurava.

“Temos de viver um dia de cada vez e aproveitar os momentos, não é? Saber valorizar as coisas boas como foi o facto de te ter conhecido e descoberto que afinal o espaço é maior do que eu pensava e que a Terra é uma bolinha azul com algumas zonas verdes” - constatou o Pedro.

“É isso mesmo! Para já, tens uma missão: voltar para junto das tuas pessoas e informá-las de que juntas, serão capazes de fazer do Mundo um lugar melhor! Fazes isso em nome de todas as estrelas?” - pediu a Estrela sábia.

“Claro, eu vou fazer isso. E prometo que vou voltar para falar contigo mais vezes! Até ao próximo encontro!

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